**English version bellow 

Se você entrar no Instagram, no Facebook ou percorrer os olhos por qualquer propaganda, revista ou outdoor, e tiver uma mulher comendo, muito provalvelmente você vai ver imagens assim:

Branca, magra, comendo comida vista como “saudável” / Foto: Creative Commons

Ou, assim:

Posada, perfeitamente maquiada, corpão, carão | Foto: Creative Commons


Concorda comigo? Eu mesma tenho preocupação estética com as fotos que eu posto e não me lembro a última vez (se é que existe) que postei alguma foto comendo algo COM GOSTO, toda suja e babada.

Pois a nutricionista americana Alissa Rumsey não se importa com pose não, e se você entrar no perfil dela vai se deparar com maravilhosas fotos como essa aqui:


Especialista em Nutrição Intutiva, ela também é responsável pela hashtag #womeneatingfood, que começou como uma brincadeira na conta pessoal dela no Instagram e acabou ganhando uma inesperada repercussão.

Eu achei a ideia muito interessante e já sigo a hashtag. Dá gosto de ver a mulherada celebrando a comida sem culpa!

Entrevistei a Alissa por e-mail e o resultado está logo abaixo. No final do texto deixei alguns links interessantes. 😉

Como surgiu a ideia do movimento?
Começou acidentalmente. Eu postei uma foto minha comendo um sanduíche – com comida no rosto, sem maquiagem, nem mesmo estava olhando para a câmera – e escrevi na legenda o quão raro é vermos mulheres simplesmente comendo e desfrutando da comida, sem justificaficativa do porquê.

Uma amiga minha, que também é Intuitive Eating Coach, Linda Tucker, comentou: “Eu acho que essa é uma boa ideia para uma nova hashstag #womeneatingfood”. Eu cliquei na hashtag e vi que só existiam três fotos usando-a, e isso foi chocante. Então mandei uma mensagem para ela e nós decidimos começar uma campanha para conseguir mais fotos de mulheres comendo. 

Dê um Google em “mulheres comendo” e tudo o que vai aparecer são imagens de mulheres brancas e magras comendo saladas!

Estamos tentando afastar o que a sociedade e a mídia nos mostram e, ao invés disso, normalizar o “comer real”.

Li que você já teve transtornos alimentares no passado, o que te levou a estudar Nutrição. Você pode falar um pouco mais sobre essa experiência? 
Eu ganhei peso no ensino médio enquanto estava passando pela puberdade, e respondi a isso fazendo o que estava ao meu redor naquele tempo – com dieta. Nunca tive um transtorno alimentar completo, mas por anos eu tive uma relação confusa com a comida. 

Me sentia culpada depois de comer certas coisas, seguia todos os tipos de regras alimentares, e constantemente pensava sobre o que e quando eu iria comer. 

Como tem sido a sua relação com a comida ao longo dos anos? 
Nos meus 20 anos, morando em Nova York e cercada de várias mulheres que tinham uma boa relação com a comida, eu comecei a naturalmente normalizar meus comportamentos alimentares. 

Comecei a praticar o comer intuitivo antes mesmo de saber o que era isso. Então, depois de ler o livro Intuitive Eating (*), percebi que foi isso que me tirou do ciclo de dieta-compulsão-culpa e o porquê de eu ter melhorado tanto a minha relação com a comida.

Foi o que me levou a me certificar em Intuitive Eating e usar essa abordagem no meu trabalho, com meus clientes.

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I was at a dinner party recently, chatting with a man about food. He said to me "Why is it that as adults, our faces are always clean when we eat? Look at kids – they finish a meal covered in food and not at all self-conscious about it." This convo really got me thinking – while yes, our hand/fork-to-mouth skills improve as we get older, there's definitely something more at play to why we keep our faces clean when we eat. • I started paying attention to this recently and noticed that as soon as I felt food on my face, my instinct was to put down my food and pick up my napkin to wipe it off. But how come? In my mind, I think wiping it off is a self-conscious move, rooted in thoughts of someone judging me or laughing at me…but why does that even matter? • So lately, I've been doing the opposite. When I feel food on my face, but am still in the midst of eating, I just leave it there. Because that food on my face is a sign that I am wholly enjoying and in the moment with my food and with that meal. • @pete3 knows my thoughts about this topic (in fact he's the one who's had to deal with my experiments with this 🤣) and he captured me in all my taco-eating glory at @casaenrique this week – a big trail of sauce dripping down my face 🧛‍♀️-style. In this case, I actually didn't even feel it, so it was an unconscious move to keep it there. But leave it to him to capture this moment, unbeknownst to me (he's sneaky with that camera phone!). • Now I’m not saying you have stop wiping food off your face if you don’t want to, BUT I hope this gives you a bit of a pause – what other ingrained food/eating habits do you do without even thinking about it? How did those habits start? #womeneatingfood #messyeating #intuitiveeating #nojudgementzone #bodypositivity

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Por que hoje em dia é tão difícil ver na Internet mulheres comendo comida de forma natural, como você propõe com a hashtag #womeneatingfood? 
Vivemos numa cultura de dieta, em que ser magro é elogiado e ser gordo é ridicularizado. A maioria das imagens que as pessoas vêem na mídia são de mulheres geralmente brancas e magras, apesar do fato de que 67% das mulheres nos Estados Unidos usam tamanho 14 ou mais (**). {nota da Marmiteira: o tamanho 14 nos Estados Unidos seria equivalente a o 48 no Brasil}

Como é tão raro ver imagens de mulheres comendo e desfrutando da comida – especialmente as mulheres que não se parecem com o que é a forma “aceita” pela sociedade – sem explicar ou justificar o que e por que estão comendo, é compreensível que tantas mulheres sintam como se não pudessesm comer sem se sentir culpadas. 

Mesmo as fotos existentes de mulheres comendo tenderm a ser “tradicionalmente bonitas”, com mulheres magras perfeitamente maquiadas, posando com a comida. Então raramente vemos fotos ou vídeos de mulheres simplesmente comendo uma comida deliciosa e bagunçada sem se preocupar com o que estão parecendo, e se estão com a make e o cabelo em dia. 

E qual a mensagem por trás disso? 
Quando se trata de imagens de mulheres comendo comida, a mensagem passada essencialmente é que está tudo bem se você comer, desde que seja magra, mas não vamos ver muitas imagens de corpos maiores apenas desfrutando a comida.

Muito disso tem a ver com o previlégio do tamanho. É definitivamente mais fácil postar uma foto comendo se você é uma mulher magra – nós não sentimos medo de comentários negativos sobre “glorificar a obesidade” ou “como vai a saúde?” que as pessoas com corpos maiores irão receber. 

Nossa esperança é, através desse movimento, continuar a normalizar que mulheres de todos os tamanhos e formas podem comer e se deliciar com qualquer comida que elas quiserem. 

Como essa falta de representação de “corpos reais” na mídia pode ser prejudicial às mulheres? 
A maioria das imagens que vemos na mídia ou nas mídias sociais não são reais. Elas são encenadas, posadas, ‘photoshopadas’ e retocadas. Mesmo sabendo disso, ainda nos comparamos e nos sentimos mal com nós mesmas. Então comparamos nós mesmas com imagens não-realistas, com algo que nem mesmo existe.

Você tem dicas para que as mulheres se sintam menos culpadas no que diz respeito à comida e ao corpo?
Ao invés de fazer julgamentos sobre sua comida (ou sobre você comendo um certo tipo de comida), seja curioso e faça observações. Por exemplo, ao invés de dizer para você mesma: “Eu não deveria comer sobremesa ‘x’ vezes em um dia”, algo mais útil seria: “Eu posso comer o quanto eu quiser”, ou: “Como não me permiti comer sobremesa ontem, isso me fez querer mais hoje”.

Qual é o impacto dessa campanha na sua vida? 
Recebi muitas mensagens de mulheres compartilhando o quão inspirador e útil foi ver essas fotos reais. Isso as fez sentir mais normais. Ao contrário das habituais “fotos perfeitas” compartilhadas nas mídias sociais, essas fotos reais de mulheres comendo – sem explicação, sem pedir desculpas, sem julgamento, sem perfeição – estão ajudando a normalizar a alimentação das mulheres. 

Referências citadas
(*) Intuitive Eating, Evelyn Tribole e Elyse Resch, 1995
(**) O estudo que levantou esse número: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/17543266.2016.1214291?journalCode=tfdt20
Algumas matérias em que esse estudo foi divulgado:
https://time.com/how-to-fix-vanity-sizing/
https://www.today.com/style/what-s-average-size-16-new-normal-us-women-t103315
https://people.com/bodies/average-womens-clothing-size-16/

Outras infos: 
O site da Alissa tem um blog com vários textos bacanas sobre estes assuntos, e ela indicou especialmente esse  aqui, que tem tudo a ver com a entrevista acima: How to get rid of food police

Currículo e contatos:
Alissa Rumsey, MS, RD, nutrition therapist and founder of Alissa Rumsey Nutrition and Wellness
Insta: instagram.com/alissarumseyRD
Website: www.alissarumsey.com

English Version 

Can you tell me how arose the idea of the movement?

The movement started accidentally. I had posted a photo of myself eating a sandwich – food on my face, no make-up, not even looking at the camera – and wrote in the caption how rare it is that we just see women eating and enjoying food, without justification as to why.

A friend of mine and another intuitive eating coach, Linda Tucker, commented: “I think this is a good idea for a new hashtag #womeneatingfood”. I clicked the hashtag, saw that there were only 3 photos using it and was shocked. So I messaged her and we decided to start a campaign to get more photos of women eating. 

Google “women eating” and all that comes up are images of thin, white women eating salads! We are trying to move away from what society and the media showcase and instead normalize real eating. 

I read that you had eating disorders in the past, which led you to study Nutrition. Can you tell me more about this experience?

I gained weigh in high school as I was going through puberty, and responded by doing what was around me at the time – going on a diet. I began to get more and more restrictive with the food I ate. I never had a full-blown eating disorder, but for years I had a messed up relationship to food. I would feel guilty after eating certain things, followed all sorts of food rules, and just constantly thought about what and when I was going to eat. 

How has your relationship with food been over the years?
In my 20’s living in NYC and being around lots of females who had a good relationship with food, I started to naturally normalize my eating behaviors. I began to practice intuitive eating before I even know what it was.

Then, after reading the book Intuitive Eating, I realized that it was what had gotten me out of the diet-binge-guilt cycle and why I now had such an improved relationship with food. It was that that led me to get certified in intuitive eating and use this approach in my work with my clients. 

Why is so hard to see on the Internet women eating naturally, as you propose with the #womeneatingfood?
We live in a diet culture, where being thin is praised and being fat is mocked.  The majority of images that people see in media are of thin, generally white women — despite the fact that 67% of women in the United States are sized 14 and up. 

Because we so rarely see images of women eating and enjoying food – especially women who don’t look like society’s “accepted” form of beauty – without explaining or justifying what or why they’re eating, it’s understandable that so many women feel like they can’t eat and enjoy food without feeling guilty.

Even the photos that do exist of women eating tend to be “traditionally beautiful”, thin women who are perfectly made up, posing with food. So we rarely see photos or video footage of women just eating delicious, messy food without worrying about what they look like or if their makeup and hair are done.

What’s the message behind it? 
When it comes to images of women eating food, the message this essentially sends is that it’s okay to eat if you’re thin, but we’re not seeing many images of people in larger bodies just eat and enjoy food.

A lot of this has to do with size privilege. It’s definitely easier to post a photo of you eating when you’re a thin woman – we don’t fear any pushback or comments about “glorifying ‘obesity'” or “what about health?!” that people in larger bodies can get. Our hope is that through this movement we will continue to normalize that women of all sizes and shapes can eat and enjoy whatever food they like.  

How this lack of representation of “real body” in the media can be harmful to women?
The majority of images we see in the media and on social media are not real. They are staged, posed, photoshopped and retouched. Yet, even if we know that, it still makes us compare ourselves and feel bad about ourselves. So we are comparing ourselves to this unrealistic image, which in reality doesn’t even exist. 

Any tips for women feel less guilty when it comes about food and the body?
Instead of making judgments about your food (or about yourself for eating a certain food), be curious and make observations instead. For example, instead of saying to yourself “I shouldn’t have had dessert x times in one day”, a more helpful thought would be “I’m allowed to eat whenever I want” and “When I didn’t allow myself dessert yesterday, it made me want to eat more today”. 

What is the impact of this campaign in your life?
I’ve gotten so many messages from women sharing how inspiring and helpful it has been to see these real photos. It makes them feel more normal. Unlike the usual “perfect” photos shared on social media, these real photos of women eating – no explanation, no apology, no judgment, no perfection – are helping to normalize eating for women.