Ele é psicólogo, psicoterapeuta e especialista em emagrecimento, transtornos de ansiedade, de personalidade e alimentares. Há 20 anos, começou a trabalhar com modelos das agências Elite, L’Equipe e Taxi; e, mais tarde, KeeMod (Elite), Joy e Ford. “No início, a proposta era a prevenção e tratamento de transtornos alimentares. Mas os agentes me fizeram ver que precisavam, também, das outras áreas.  O trabalho é preventivo e trato meninas com transtornos diversos, inclusive alimentares.”

Ao longo destes anos, ele pôde observar um traço em comum entre muitas modelos: a insatisfação com o próprio corpo diante do espelho. Em entrevista ao Marmiteira, o Dr. Marco Antonio De Tommaso compartilhou algumas das suas experiências profissionais que podem nos fazer refletir um pouco mais sobre essa loucura chamada “padrão de beleza”. Confira!

Na trajetória profissional do senhor, quais as situações mais graves com as quais se deparou, de pessoas em busca do corpo perfeito?
Meninas tomando detergente (para provocar o vômito e eliminar as calorias ingeridas), mulheres comendo algodão com água para “encher”  o estômago; e um caso, o mais estranho, uma jovem que comprou um kit que continha vermes  para provocar uma verminose e emagrecer.

Na sua opinião, porque as mulheres sofrem infinitamente mais com essas questões do que os homens?
A proporção é de 10 para 1. Os chamados “padrões” de beleza impostos pela mídia ocupam o primeiro lugar e são muito mais rígidos em relação à mulher. Se há 40 anos as meninas eram comparadas com as colegas mais bonitas da escola, hoje são comparadas com as mulheres mais bonitas devidamente selecionadas, produzidas antes e depois de seu trabalho. Centenas de fotos para a escolha de três; horas de filmagem para 30 segundos de comercial.

Como disse a Cindy Crawford: “antes de passar duas horas com o maquiador e o cabeleireiro nem eu pareço a Cindy Crawford”… E na época ainda não havia o Photoshop.

Todas as misses de 70 para cá têm IMC abaixo de 18, modelos pesam em média 23% a menos do que mulheres da mesma idade e do mesmo biotipo e 8% menos que suas colegas de 30  anos atrás.

O senhor já chegou a fazer uma pesquisa sobre o comportamento das modelos. Poderia destacar os números mais impactantes?
Alguns dados chamaram a atenção: 100% delas queriam emagrecer em média 3 kg; 92% fariam cirurgia plástica se pudessem. A média das notas que dariam para o corpo foi de 6,3, com diversos zeros…A média das notas para o rosto foi 7,2.

Ou seja, o grau de insatisfação da população de modelos é maior do que das mulheres “não-modelos”…

A faixa de idade do levantamento era de 18 anos em diante, para minimizar o fator adolescência.

Se as modelos que já estão dentro deste suposto “padrão” sofrem, o que o senhor diria para as mulheres “comuns” saírem deste ciclo eterno de comparação?
Ser modelo é uma exceção genética. Elas, que ditam o tal “padrão”, que de padrão não tem nada, estão mais insatisfeitas do que as “não-modelos”.

Eu diria:

  • Não há padrão. A beleza está na diversidade.
  • Seja você mesma, na sua melhor versão: quais são os seus diferenciais? O que a faz única?
  • Mude o que pode ser mudado  e conviva harmoniosamente com o que não pode.
  • Mais que ser ou estar, é preciso sentir-se bonita. Não há beleza sem saúde e autoestima.
  • Num sentido amplo, ser bonita é ser feliz!

** Confira outros dados da pesquisa feita por Tommaso, a partir da entrevista com 140 modelos, no ano de 2003, que mostrou que todas elas mostram insatisfação e/ou “imperfeições” no rosto ou no corpo ou no rosto e no corpo.

O IMC destas garotas, na época da pesquisa, variava entre 16,5 a 18,8. Lembrando que, de acordo com o Ministério da Saúde, o IMC menor ou igual a 18,5 é considerado “baixo peso”.

  • Insatisfação corporal: praticamente todas querem emagrecer, em média, 3 kg.
  • Fariam correções cirúrgicas : (números arredondados)
    • Lipoaspiração: 92 %
    • Implante de silicone: 74%
    • Ambos: 96%
    • Uma modelo disse que faria cirurgia para redução de estômago
  • Insatisfação com o rosto: 76%
    • Nariz: 54%
    • Olhos: 52%
    • Cabelos: 48%
    • Formato do rosto: 46%
    • Orelhas: 20%
    • “Papada”: 40%
    • Queixo: 22%
    • Pele: 42%
    • Outros: 22%
    • Fariam correções cirúrgicas no rosto: 72 %
  • Nota que deram a si mesmas:
    • Média das notas para o rosto: 7,2 (em 10)
    • Média das notas para o corpo: 6,3 (em 10)

Dr. Marco Antonio De Tommaso é psicólogo e psicoterapeuta pela Universidade de São Paulo; atuou no IPQ HC USP em pesquisa e atendimento; credenciado pela Associação Brasileira para Estudo da Obesidade; articulista da revista Boa Forma – “No Divã”.