Li que a Cleo Pires estava sofrendo críticas por ter engordado. A minha primeira reação, confesso, foi visitar o perfil da atriz no Instagram pra ver se a informação procedia. É feio admitir, mas acho que dá uma espécie de alívio saber que até as famosas engordam. É reconfortante saber que oscilar o peso é algo NORMAL, e não um crime, um pecado, ou sinônimo de desleixo.  

Pessoas que trabalham com a própria imagem, como a Cleo, geralmente têm uma “infra” para manter a alimentação, o treino, o cabelo e a pele em dia. Coisa que nós, meras mortais, não conseguimos acompanhar. Acho que até por isso sejam mais cobradas – embora eu acredite que ninguém deveria se sentir no direito de julgar.  

Notei que ela realmente parecia um pouco maior nas fotos…mas, ainda assim, longe de estar gorda. O que me chamou atenção, no entanto, foi um texto de desabafo que ela escreveu, no qual compartilhava com seus seguidores que sofre, há anos, de transtornos alimentares. 

Isso significa que muitos dos likes e comentários positivos direcionados ao corpo dela – quando este era considerado “dentro do padrão” – poderiam estar reforçando uma imagem consquistada em torno de sofrimento e privação.

A patrulha do corpo alheio está cada vez mais atuante e, pelo visto, nem as DEUSAS escapam. Mais recentemente foi a Beyoncé (!!!) que aparentemente não agradou com um vestido amarelo que ressaltava suas belas curvas. Teria a deusa engordado? Seria esse um problema nosso?

Tenho me perguntado se perdemos a noção do que significa a palavra “gorda”. Primeiro que o adjetivo sempre vem associado à derrota ou à falta de cuidado com o próprio corpo e com a saúde. E isso, por si só, já é um equívoco. “Gorda” não deveria ser usado como um xingamento.

Segundo que oscilar o peso está há milhas de distância de ter um problema sério de obesidade, como o relatado pela escritora Roxane Gay no livro Fome.

E eu indico esse livro aqui porque acho que vale muito a pena fazermos o exercício de olhar mais profundamente para o nosso nível de cobrança com nós mesmas e com as mulheres que nos cercam.

Sobre o livro

Roxane viveu um abuso sexual aos 12 anos de idade e, desde então, passou a usar a comida como escudo. Ela acreditava que, quanto mais engordasse, mais afastaria os homens. E, assim, estaria imune à qualquer tipo de assédio.

O texto é pesado porém necessário: é um baita exercício de empatia entender as limitações que uma pessoa com obesidade mórbida sofre. 

A escritora chegou a pesar mais de 200 quilos, e isso gerou uma série de problemas que quem está dentro de um peso considerado normal (mesmo que tenha engordado três, quatro ou cinco quilinhos nas últimas férias) está longe de conhecer. 

Vai desde preocupações cotidianas como caber numa cadeira e encontrar roupa do seu tamanho – o que para a maioria das pessoas é algo banal – até questões emocionais complexas, transtornos alimentares e uma enorme dificuldade de autoaceitação.

Ela ainda luta com muitas dessas questões mas venceu tantas outras.

Se tornou uma escritora respeitada e, compartilhando a própria história, com certeza ajuda muitas mulheres que vivenciaram ou ainda vivem dramas parecidos. 

Em tempos em que o linchamento virtual virou esporte, vale refletir sobre o quanto nós mesmas alimentamos essa necessidade de perfeição, seja julgando os outros, seja nos autoavaliando de maneira tão crítica diante do espelho. Bora praticar? 😉