A primeira impressão que tive quando cheguei em São Francisco para morar por um tempo foi: é muito mais fácil e barato ser saudável aqui do que no Brasil. Minhas primeiras incursões ao mercado eram de total encantamento: muita alimentação fresca e orgânica a preços acessíveis, muitos produtos locais e pouca presença de marcas grandes. Uma coisa bem descolada da realidade dos Estados Unidos como um todo, verdade seja dita.

Claro que não demorou muito para eu perceber que o mercado que costumo ir é apenas um recorte: apesar de São Franscisco ser reconhecidamente uma cidade preocupada com a qualidade da alimentação, nem todo supermercado consegue fugir das grandes marcas.

A minha euforia também ia embora toda vez que eu lia alguma notícia desanimadora à respeito da indústria alimentícia no Brasil, da falta de regulamentação, de informação, de acesso, dos desertos alimentares, etc. Para sair da zona do “achismo” e recuperar a esperança, resolvi conversar com quem entende. E digo-lhes amigos: YES, WE CAN BE HEALTHY sem deixar todo o salário no mercado!

Confirmando minhas crenças, o negócio é se voltar para os alimentos in natura, sempre que possível. Bati um papo sobre isso com a antropóloga Maíra Bueno, que pesquisa políticas e sistemas alimentares. Se quiser conhecer mais do trabalho dela, não deixe de visitar o site Projeto Alimento, tem matérias bem bacanas por lá! Veja os principais trechos da entrevista.  

Aqui em São Francisco o acesso a alimentos frescos, orgânicos e locais é mais democrático. No Brasil, por outro lado, nem todo mundo tem esse “luxo”. Como você avalia isso?
O acesso aos alimentos, em geral, está relacionado com as políticas públicas locais. Nos anos 60, por exemplo, o governo federal só liberava crédito para os agricultores se estivesse vinculado com a compra de agrotóxicos! O governo Lula deu um salto importante ao incentivar a agricultura familiar através de diversos programas.

Na questão dos orgânicos, foi só no final de 2013, no governo Dilma, que foi lançado um Programa Nacional de Agroecologia e  Produção Orgânica (PLANAPO). Ou seja, até bem pouco tempo atrás, esse tipo de produção não era estimulado no Brasil, então como esperar que haja orgânicos suficientes?

Enfim, as políticas são importantes para estimular determinadas ações. Mas quem faz as políticas são as pessoas! O papel da sociedade e do lobby das indústrias nesses contextos pode ser um grande diferencial, afinal são esses grupos organizados que podem definir que tipo de política será adotada.

Incluir mais alimentos in natura na alimentação é alternativa para ter mais qualidade na mesa, segundo Maíra. Foto: Creative Commons

É caro comer bem no Brasil?
O Guia Alimentar para População Brasileira sugere que comer saudável é ter uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, com uma maior proporção de vegetais, de preferência orgânicos e livre de transgênicos. As pesquisas apontam que alimentos como arroz, feijão, farinha de mandioca, milho e batata doce são consumidos muito mais entre as camadas pobres da população. E esses alimentos são considerados saudáveis.

Aparentemente, parece inviável para uma família com poucos recursos financeiros se alimentar bem, ainda mais se consideramos que o saudável é apenas o orgânico. Mas é possível ter uma alimentação saudável com alimentos frescos convencionais, por exemplo. O que vai diferenciar entre o saudável e o não saudável não é exatamente o orgânico e o convencional, mas o uso ou não de produtos artificiais utilizados pela indústria alimentícia nesses produtos.

O Guia Alimentar para a População Brasileira é uma referência importante justamente por retomar esse conceito de “comida de verdade”. Você acredita que é viável seguir essa cartilha, considerando as diferenças sociais existentes?
É possível sim! A alimentação processada e ultraprocessada atinge todas as camadas da população. Então a questão não é tanto social. Acho que é mais uma mudança de hábito mesmo. O consumo de processados está muito associado com a ideia de praticidade, rapidez, durabilidade. Tudo isso pode ser muito sedutor na hora de se alimentar.

Você acha que existe confusão entre os conceitos de alimentação saudável e os modismos da indústria do fitness?
Provavelmente essa confusão existe porque o marketing se encarrega de associar a noção de uma alimentação saudável com esses alimentos “fitness”. É claro que há pessoas que são realmente alérgicas aos itens com glúten e lactose, por exemplo. Mas as que não são alérgicas provavelmente adotam essas restrições na expectativa que elas tragam os benefícios prometidos por este tipo de alimentação.  

Nestes casos, itens como glúten, lactose e gordura tornam-se um tabu alimentar que é compartilhado por um grupo de pessoas que acreditam que só vão atingir um estado de saúde e um determinado corpo a partir do que ingerem ou deixam de ingerir. Por isso, fazem suas escolhas alimentares a partir de categorias como  alimentos “bons” ou “ruins” ou  então “permitidos” e “não permitidos”. Na busca da saúde perfeita e um corpo ideal, esses itens sejam carregados de significados negativos, que vão atrapalhar essa busca.

Qual sua percepção sobre os desertos alimentares brasileiros? Quais seriam as soluções viáveis para melhorar o valor nutricional do que vai à mesa das pessoas que moram nessas regiões?
Sei que em São Paulo, por exemplo, onde há muitos desertos alimentares – praticamente toda a periferia da cidade pode ser considerada um deserto alimentar –  existe todo um movimento social que impulsiona a política de agricultura urbana na cidade e que está  diminuindo as desigualdades de acesso aos alimentos frescos nessas regiões.

Tem muita gente fazendo horta urbana e esse parece ser o melhor caminho. Só na Zona Leste, são mais de 30 hortas na Associação de Agricultores Urbanos, por exemplo. Isso está alterando toda a dinâmica alimentar daquela região!

O Brasil sofre de uma crescente epidemia de obesidade. Estamos nos alimentando mal?
Aumentou o consumo dos processados e ultraprocessados, que são os embutidos, sorvetes, salgadinhos, biscoitos, sopas e macarrão instantâneo, molhos, refrigerantes, etc. E é por causa disso que as doenças crônicas não transmissíveis estão aumentando no País.

O que eu vejo é que a quantidade e a variedade desses produtos processados e ultraprocessados no mercado também vem aumentando absurdamente.

Então seria interessante a gente começar a refletir sobre como essa produção industrial de alimentos tem influenciado nossa alimentação.

Mais arroz e feijão, menos salgadinho, bolacha recheada e suco em pó! Foto: Creative Commons

Mais arroz e feijão, menos salgadinho, bolacha recheada e suco em pó! Foto: Creative Commons

Quais seriam suas recomendações gerais para quem quer manter uma boa alimentação, mesmo com o orçamento apertado?
Quer gastar pouco com alimentação? Em primeiro lugar, coma pouco! Parece brincadeira, mas é isso mesmo! Hoje em dia existe muita disponibilidade de alimentos ao nosso redor. Então cuidado para não comer aquilo que não é necessário. É claro que às vezes dá vontade de comer algo mesmo sem estar com fome, mas não faça disso um hábito!

Outra coisa: sempre que puder, prepare seus próprios alimentos. Comer na rua, em lanchonetes e restaurantes, leva boa parte do orçamento, então tente preparar seus alimentos em casa. Vai sair, leve seus alimentos com você!

A sua ideia das marmitas, por exemplo, é ótima! Aliás, programe-se para ter sempre alimentos in natura em casa. Uma casa sem alimentos in natura faz com que estejamos sempre recorrendo aos processados e ultraprocessados ou então comendo na rua! Na hora das compras, prefira as feiras aos supermercados.

As feiras possuem ofertas bem mais em conta que nos supermercados, sem contar que muitas vezes os preços podem ser negociados – principalmente quando a feira já está acabando! Além disso, na feira você não se distrai comprando alimentos processados e ultraprocessados. Acredite, comprar alimentos processados e ultraprocessados é sim uma distração, afinal quando vamos às compras, nunca fazemos escolhas de forma racional, as compras são sempre motivadas por outros aspectos, emotivos e sensoriais.

Por fim, adote uma alimentação de base vegetariana. Você não precisa ser exatamente um vegetariano ou vegano, mas uma alimentação focada nos vegetais sai bem mais em conta do que uma alimentação focada nas carnes. Não se trata de ter um estoque de goji berry, castanhas de todos os tipos e outros alimentos “plant based protein” estocados em casa. Mas afinal, porque todo sanduíche precisa ter presunto? Toda farofa precisa de bacon? Todo dia é preciso comer proteína animal? Tudo isso não passa de um condicionamento! Experimente tirar alguns ingredientes de proteína animal da sua rotina alimentar e veja como isso pode economizar o seu orçamento.