Se você é uma daquelas pessoas irritantes que têm horta em casa e sabe cuidar bem dela, sai pra lá (mentira, eu te invejo). Eu já tentei muitas vezes sem sucesso, e ainda pretendo escrever sobre a minha saga como forma de solidariedade para quem tem o mesmo problema que eu na hora de cuidar de uma plantinha.

Diante da minha inabilidade em cultivar os próprios temperinhos, acabo comprando na feira ou no hortifruti e vira e mexe me pergunto o que vou fazer com TANTO majericão, tomilho, hortelã e por aí vai.

Isso vale pra salada também: às vezes eu queria fazer um mix de folhas, mas comprar um pé de alface grande e um de rúcula já é muito para duas pessoas, dependendo da agenda da semana.

Claro que a gente sempre tem uma técnica aqui, outra ali, para conservar as folhas e evitar o desperdício (nunca jogo nada fora). Mas já pensou que maravilhoso se a gente pudesse pegar numa horta somente a quantidade suficiente para o consumo? Sem trazer um excedente de folhas para casa?

Você não jogaria nada fora e, ao mesmo tempo, teria folha pra todo mundo.

Felizmente o mundo está cheio de pessoas que sabem transformar uma ideia simples em algo que traz benefícios reais para a sociedade, como é o caso do projeto AORTA, criado pela arquiteta Gabriela Nalon, de São Paulo.

Aorta Comunitária

A criadora do projeto, Gabriela Nalon. Foto: Aorta Comunitária/Facebook

Tudo começou com um desejo antigo de ter uma horta em casa (pelo visto não sou a única! Rs). Apesar de morar em casa, e não em apartamento – o que facilita um pouco as coisas -, ela tinha um probleminha: o único lugar que batia sol era na calçada. “Ao plantar as primeiras ervas na frente da minha casa, o sucesso foi tanto com os vizinhos que pensei: por que não levar isso para outras ruas? Percebi que com uma pequena ação positiva, consegui engajar as pessoas a virem mais para as ruas”, contou, em entrevista ao Marmiteira.

O projeto nada mais é do que tambores espalhados pela cidade (atualmente, estão em cerca de dez pontos diferentes), com ervas, folhas e legumes plantados. Quem passa, pode pegar. “No começo demorou um pouco para entenderem que a Aorta é para todos, mas hoje temos várias pessoas engajadas. Com os vídeos de dicas de manutenção que estamos lançando, as pessoas estão se envolvendo cada vez mais.”

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Projeto incentiva o compartilhamento. Foto: Aorta Comunitária/Facebook

A ideia é multiplicar a iniciativa: que as pessoas comprem um ou mais tambores, coloquem nas calçadas e compartilhem com seus vizinhos os resultados disso. E não precisa ser nenhum expert para saber o que e quando colher: plaquinhas indicam as datas de plantio e colheita.

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Para que ninguém colha nada antes da hora, avisos! Foto: Aorta Comunitária/Facebook

Outra faceta do projeto são as ações educativas que acontecem em escolas, para desenvolver as comunidades por meio de hortas comunitárias.

Gabriela criou o Aorta há aproximadamente um ano e meio. “Hoje o projeto toma 100% por cento do meu tempo de trabalho, pois estou em busca de patrocínio para instalar 4 mil tambores na cidade”, planeja.

Os tambores tomando conta do espaço urbano. Foto: Aorta Comunitária/Facebook

Os tambores tomando conta do espaço urbano. Foto: Aorta Comunitária/Facebook

Segundo a criadora do projeto, o investimento inicial nos tambores foi todo dela, mas, aos poucos, a ação começou a tomar forma e algumas pessoas se colocaram à disposição para adotar os custos de instalação e manutenção. “Temos recebido muitas mensagens com interessados em adotar os tambores. E estamos em processo de análise para uma nova leva de instalações.”

Se você se interessou em ajudar, a Aorta aceita todo tipo de voluntário: aqueles que querem colocar a mão na massa (regar, colher e afofar!), ou quem prefere colaborar financeiramente. “Quem quiser adotar os custos de um tambor, nós analisamos se é possível na calçada, instalamos e fazemos a manutenção por 12 meses.”

Vai uma saladinha fresquinha aí? Foto: Aorta Comunitária/Facebook

Vai uma salada fresquinha aí? Foto: Aorta Comunitária/Facebook

Comida de verdade no meio da cidade

Apesar de ser boa com a jardinagem, Gabriela não se gaba de seus dotes na cozinha. “Sou um fiasco na elaboração de qualquer prato que precise ligar o fogão! Em compensação, adoro elaborar saladas com hortaliças, temperos e legumes. Sou prática e como muita coisa crua!”, conta.

Um dos principais resultados da Aorta, até agora, é o incentivo a essa aproximação com a “comida de verdade” no meio da selva de pedras. “Acho que o grande agregador dos vizinhos foi o fato de poder ter o contato com o que é mais raro em um centro urbano, a terra e o cultivo dos alimentos. As pessoas se sensibilizaram com essa nova experiência sensorial. Acho que no final estamos todos carentes disso… de comida de verdade!”.

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É um respiro poder ver um verdinho no meio da cidade, não é não? Foto: Aorta Comunitária/Facebook