Certa vez, fui entrevistar uma pessoa na própria casa dela. Eu ia fazer uma matéria contando um pouco da história pessoal e do projeto que ela estava desenvolvendo. Era uma casa bem simples, mas cheia de amor, notei.

Uma entrevista começa antes da conversa em si. Começa na observação dos detalhes, dos trejeitos, da forma de se vestir, da decoração da casa, dos objetos espalhados pelo chão. Essa entrevista não tinha nada a ver com comida, nem com nutrição. Era na verdade sobre um documentário. Mas a primeira coisa que eu percebi ao entrar na casa foi a cozinha (surprise, surprise!).

Cheia de louça. Pratos, talheres, vasilhas. Duas taças, um delas, ainda com um resto de vinho tinto. A borda de uma forma estava impregnada com uma espécie de creme branco e algumas sobras de queijo derretido e seco. “Algo delicioso foi gratinado aqui”, imaginei. Eu vi amor naquela cozinha bagunçada.

Era uma manhã cinzenta de quarta-feira. O que significava que aquele banquete regado à vinho tinha sido realizado em uma terça-feira à noite. TERÇA-FEIRA. Quer dia mais ordinário que terça?

Não é nem segunda; quando há licença poética para a preguiça; nem quarta, que já é o meio da semana; nem quinta; que é quase sexta. Nem sexta, que é o dia que, finalmente, a gente se permite enjacar.

Isso já faz uns cinco anos e eu me lembro o quanto aquela cena me marcou. Naquele dia, eu parei para pensar quantas vezes abri mão de tomar uma taça de vinho ou comer algo mais pesado simplesmente porque era dia de semana. Por que é que a gente impõe essas regras para nós mesmos? (será que sou só eu?!?)

Naquele dia, eu me perguntei: será que faz alguma diferença para o corpo enjacar no sábado ou na terça? Comecei a pensar que não faz muito sentido esse tipo de regra. Porque nem mesmo faz sentido o conceito de “enjacar”.

Depois daquele episódio, comecei a fazer o exercício de olhar para a minha alimentação de uma forma mais integral; como parte de um estilo de vida, e não como um caderninho de regras que eu tinha que cumprir.

Não é fácil, continuo tentando achar o caminho do meio, mas uma coisa eu já percebi: meu corpo responde muito melhor ao equilíbrio do que à restrição seguida do exagero. Eu tento levar uma alimentação equilibrada e beber com certa moderação (tento, não quer dizer que sempre consigo!). Quando bebo mais do que estou acostumada, meu corpo sente, fico derrotada. Simplesmente não sei mais lidar com ressaca.

Hoje eu vejo que não há muito espaço para o “enjacamento” quando a gente busca um estilo de vida equilibrado. Porque você passa a reavaliar não é só alimentação, mas também a buscar a atividade física que realmente te traz prazer; tenta identificar e trabalhar suas fontes de estresse; busca dosar trabalho e lazer; reavalia e corrige certos hábitos; questiona, e, às vezes, abandona relacionamentos que te colocam para baixo.

E, depois de avaliar tudo isso, percebe que a perfeição não existe, e que o caminho do meio é muito melhor.

Não acho que ter disciplina é uma coisa ruim, pelo contrário, é o que nos faz alcançar nossos objetivos e depois nos orgulhar do nosso esforço. Eu sei que a minha disciplina em cozinhar a minha própria comida, por exemplo, me ajuda a manter o peso em que me sinto confortável.

Mas o excesso de disciplina sufoca, e, às vezes, a perfeição que a gente tanto busca pode estar em uma simples quebrada na rotina no jantar de uma terça-feira qualquer.