São apenas dez horas da manhã de um dia ensolarado e eu paro no quiosque de uma estação de metrô para comprar uma água. À minha frente, a moça pede dois hot dogs “com tudo o que tem direito”, um para ela, um para a filha. “No capricho, hein, moço?”, reforça.

Coisa feia é ficar reparando no pedido alheio, não nego. Mas não consegui não pensar naquela menina, que devia ter uns nove anos de idade, ingerindo toda aquela quantidade de catchup de marca duvidosa, maionese e batata palha murcha como o que provavelmente seria a primeira refeição do dia.

Reitero aqui que sou contra o radicalismo quando o assunto é alimentação. E com a rotina que levamos nas grandes cidades, é praticamente impossível abrir mão dos industrializados, especialmente quando estamos nas ruas.

Mas eu me assusto com a quantidade de vezes que vejo, neste tipo de cena cotidiana, mães sendo permissivas e negligentes com relação ao que as suas crianças estão comendo.

Na mesma proporção que observo este tipo de coisa, vejo os números da obesidade infantil aumentando, o que fica nítido por meio de inúmeras pesquisas lançadas a cada semana.

Uma delas, realizada em 2012 pelo Programa “Meu Pratinho saudável” da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, mostrou que uma cada quatro crianças paulistanas é obesa. É criança para caramba, não?

Felizmente, muitas ações para combater esta epidemia também estão aparecendo por aí. Uma que me chamou atenção recentemente é a campanha Agite-se, do Idec  (Instituto Brasileiro de Defesa ao Consumidor). Assista ao vídeo e tire suas próprias conclusões. 

A pesquisadora do órgão, Ana Paula Bortoletto, conta que o vídeo teve excelente repercussão. Até o fechamento deste post, ele acumulava quase 300 mil visualizações. “As informações que mais causaram espanto foram o teor de açúcar das bebidas e as bebidas mistas, que contém no geral mais suco de maçã do que o suco da fruta que está sendo divulgada na embalagem”, afirma Ana Paula. 

Venho me interessando pelo tema “alimentação infantil” porque acredito que os hábitos dos pequenos refletem os erros que, nós, adultos, acabamos cometendo. Afinal, quem nunca se rendeu à praticidade de um suco de caixinha?

Para quem não quer abrir mão do suco industrializado, a dica da Ana Paula é optar pelas versões integrais sem adição de açúcar. No mercado existem boas opções, especialmente de laranja em uva. “As alternativas menos saudáveis são os refrescos em pó (1% de fruta) e os refrigerantes”, explica.

Achocolatados
Tomar achocolatado em caixinha – para não citar marcas – é um prazer não restrito somente às crianças.

Mas o fato é que muitos deles são carregados de açúcar, então, utilizar como única alternativa no lanche da criança (vale para adulto também!) acaba resultando em uma ingestão muito grande de aditivos ao final da semana. “A categoria de bebidas lácteas são ainda piores [do que os sucos], pois sua composição é de apenas 51% de base láctea, o resto pode ser completado com água, açúcar e outros aditivos”, afirma Ana Paula.

Não é necessário limar da dieta essa opção tão adorada, mas é melhor substituir por uma versão caseira, feita com leite e chocolate em pó sem açúcar. Eu faço sempre e fica tão gostoso quanto!

Uma dica que uma nutricionista me deu uma vez e que eu gostei é levar para o trabalho uma garrafinha com leite, e o achocolatado em um recipiente à parte (no caso, aquele sem açúcar, só o chocolate mesmo). Quando bate aquela fome no fim do dia, é só colocar o chocolate no leite, chacoalhar e ser feliz. 

Rótulo ou bula?
Tudo fica ainda mais complicado quando lemos os rótulos deste tipo de produto. Tenho certeza que não são só as crianças que têm dificuldade de decifrá-los.

Ana Paula ensina que a lista de ingredientes vem na ordem decrescente de quantidade de cada item do produto. “Se o açúcar aparece em primeiro lugar, quer dizer que é o ingrediente em maior quantidade”, ensina. Achei uma dica prática para já limar os produtos mais ricos em açúcar, por exemplo.

Para o sódio, também tem um método prático, e você pode usar como base cada 100 gramas do alimento: os que possuem mais de 600 mg de sódio nessa porção são os que têm alto teor sódio;  entre 100 mg e 600 mg por porção têm médio teor; e baixo teor quando apresenta menos de 100 mg.

Por fim, ela recomenda que o vídeo seja mostrado para as crianças, além de reforçar os diálogos em casa e na escola. “Acho que é importante os pais conversarem com os filhos sobre as diferenças entre os sucos de caixinha e os naturais. E também conversar na escola para que sejam promovidas atividades lúdicas com pais e crianças sobre alimentação saudável”, finaliza.

Aproveitando o tema, deixo aqui uma outra dica de documentário sobre alimentação infantil, chamado Muito Além do Peso. Este é um pouco mais antigo, foi lançado em 2011, mas infelizmente continua muito atual. Recomendo fortemente não só para quem tem filhos. Chega a chocar a falta de informação sobre alimentação no nosso País.